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sábado, 17 de setembro de 2011

O sonho bolivariano


por Gonçalo Armijos Palácios


América Latina se define por um passado de sujeição e de luta e por um presente de esperança


É difícil, em poucas palavras, dar uma ideia do que é ser e sentir-se latino-americano. O termo é amplo e vago, como muitos que só recebem seu significado mais preciso no contexto em que são usados. Pois os latino-americanos, hispano-americanos ou indo-americanos, como somos chamados, não constituímos um tipo étnico ou social que possa ser definido com precisão. Mas, apesar dessa impossibilidade de definirmos o que é ser parte da América espanhola ou da América índia, há laços que nos unem fortemente.

Tais laços encontram suas raízes na própria história e começam num tempo, milenar, anterior à vinda dos europeus a estas terras transatlânticas. Se considerarmos o território que hoje ocupam os povos que foram colonizados pela Espa-nha, temos um amplo e rico panorama em que se destacam, de norte a sul, os astecas, maias, chibchas, shyris, incas, aymaras, guaranis e araucanos. Cada uma dessas comunidades havia estabelecido um elo cultural antigo e forte. Tão forte que até hoje resistem algumas de suas línguas, tradições e costumes. Num sentido, os habitantes desses povos, e suas culturas, foram incorporados à cultura européia e, em outro, os europeus foram transformados em algo muito diferente do que seus antepassados tinham sido na Europa. Com o passo do tempo, os povos que aqui habitavam e seus invasores se fundem para formar uma sociedade nova, complexa, sui generis. De alguma forma podemos falar numa bicolonização. Pois o colonizado foi, ele próprio, incorporado a uma nova forma de vida, de trabalho e, portanto, a uma nova visão de mundo.

Pela forma específica em que ocorreu o domínio espanhol, desenvolveu-se uma reação comum provocada por uma mesma situação, a da sujeição política, ideológica e econômica à Espanha. E pela forma como as populações indígenas foram exploradas, formou-se também um sentimento muito próximo de revolta contra tudo o que era europeu.

Passam a coexistir, assim, dois sentimentos aparentemente conflitantes: o ódio aos invasores e o ódio à colonização. O ódio aos invasores por parte das populações indígenas, o ódio que as novas elites sentiam da opressão que por sua vez sofriam da coroa espanhola. De alguma forma, esses dois sentimentos se fundem e confundem. Pois, num sentido, as gerações descendentes dessas elites não se sentiam mais europeias, e se identificavam com o americano. Viam o Novo Mundo como o seu, por nascimento e tradição. Por outro, mesmo que aos poucos, começa uma miscigenação que cria a figura do mestiço. Mestiçagem que deve entender-se em sentido biológico e cultural. Pois mestiço não é só quem nasce de branco e índio, mas quem aprende a falar um tipo de espanhol que não será mais semelhante à língua de Castela. Podia ser muito parecido, mesmo quase igual, mas com um léxico muito mais variado e sotaques os mais diversos.

Com o passo dos séculos, desde a conquista, o sentimento de identidade se aprofunda ao mesmo tempo em que se tornam mais agudas as contradições com a Espanha. O desejo e as ações independentistas começam a aparecer por todo lado a partir de, aproximadamente, 1808.

Em 1819 se cria a Grã-Colômbia, um Estado independente formado pelos territórios das atuais repúblicas da Venezuela, Colômbia e Equador, mas que incluía também o território de Panamá, parte da Costa Rica e, pelo sul, parte do Peru. A libertação efetiva desses territórios foi por meio de campanhas militares, das chamadas guerras de independência, no território venezuelano, colombiano, equatoriano e boliviano. Pelo sul, o mesmo acontecia com as tropas lideradas pelo General San Martin, que libertou a Argentina, subiu até o Peru e se encontrou com Bolívar em Guayaquil.

O sonho bolivariano é o de uma nação hispano-americana unificada, forte, livre. Mas um é o sonho, outra a realidade. Quando era estudante secundário no meu país, na aula de história e, especificamente, na do período revolucionário, ficamos sabendo que, logo depois da revolução vitoriosa, escreveram num muro da minha cidade, Quito, a seguinte frase: “último día del despotismo, y primero de lo mismo”. Mudaram-se, apenas, os amos. O sonho não se cumpriu, a própria Grã-Colômbia não durou muito, se desfez em 1830. E Bolívar percebeu qual foi o destino de seus projetos e lutas. Não por acaso teria dito “tenho arado no mar e semeado no vento”. Seja como for, o sonho por uma América Latina melhor, menos injusta, menos desigual, não só continua como dificilmente esmorecerá.